sábado, 15 de março de 2008

Teatro - " Quartett" de Heiner Müller

A sedução em xeque
O casal entra em cena por lados opostos. Como lutadores no tatame, realizam um cumprimento respeitoso, mas que denota um conflito que está prestes a começar. O homem rapidamente se deita de bruços à frente do palco com a palma da mão direita virada para cima. É um corpo desfalecido. A mulher se senta em uma acomodação e o observa com um olhar fixo que oscila entra a arrogância e o desprezo. Destoando do aspecto de embate, no entanto, o que se sucede é uma declaração exaltada de amor por parte dela. Mais do que um romantismo arrebatador, o que fica sublinhado na declamação é o desejo físico pelo seu alvo de apreciação. Contudo, o que seria uma expressão passional logo ganha contornos de farsa e de deboche. Tratava-se de uma encenação muito bem traçada de uma admiração inexistente. O primeiro movimento de um duelo pontuado por representações onde a capacidade de seduzir com eficiência é a medida que concede a vitória ao jogador.
Embora o sexo seja o tom predominante nos discursos e nas ações dos sádicos Valmont (Guilherme Leme) e Merteuil (Beth Goulart), é um sentimento aparentemente menos óbvio que fomenta o relacionamento entre os dois. Por amor ou por tédio, eles estão ali, em um uma sala de um apartamento qualquer da cidade, provando um ao outro que ainda são capazes de suscitar atração e repulsa com intensidades suficientes para destroçar índoles alheias. É nesse pêndulo impreciso e ardiloso que se sustenta a peça “Quartett”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil paulistano até 20 de abril. Baseado no clássico “Ligações Perigosas” de Chordelos de Laclos (e lembrado principalmente pela versão cinematográfica de Stephen Frears), o texto do alemão Heiner Müller (1929-1995) é na superfície um embate feroz entre dois libertinos motivados pela necessidade de afirmar destreza na arte da sedução (e, por extensão, na de amargurar vidas). Por outro lado, em uma profundidade menos rasa, aborda de uma maneira ora velada ora impulsiva, as amarras que fazem o par carregar nuances de casal.
A montagem do diretor Victor Garcia Peralta leva os personagens do século XVIII, época retratada no livro original, para um tempo que se aproxima da atualidade. O efeito é conquistado ao utilizar a projeção de vídeo para situar a ação em um espaço urbano onde da janela observa-se o movimento noturno e sorrateiro de uma cidade indefinida. Essa contextualização ressalta a atemporalidade das motivações dos personagens que se baseiam em exercícios de poder, sedução, vingança e hedonismo. Tais impulsos também estão evidenciados no figurino da peça. Merteuil, de temperamento majoritariamente masculino, conquista sensualidade na transparência da saia e na revelação do colo e das costas. Sua imagem exala força e feminilidade. Valmont, por sua vez, carrega graves marcas de unhas na camisa. São vincos que expõe possíveis agressões do sexo oposto – gênero que o personagem classifica como presa no seu território de conquista. O aspecto final resulta em fragilidade e certo desleixo.
Assim como nas roupas, um dos artifícios utilizados em “Quartett” na atuação lida essencialmente com as aproximações e as disparidades entre o masculino e o feminino. Ao demonstrar as técnicas de conquista – e, por conseqüência, de aniquilamento - sobre a pessoa escolhida, os protagonistas trocam de papel, alternando ora de caça para caçador, ora de manipulador para manipulado. Dessa forma, Valmont se transfigura na esposa que está prestes a trair sua fidelidade conjugal enquanto Merteuil assume a conduta do próprio Valmont. Em outra cena, a protagonista abandona seu ar de controle e dominação para se entregar à personificação de uma figura virginal e supostamente ingênua que cede à falsa retórica de Valmont. São nestes momentos que o virtuosismo dos atores é colocado à prova. Beth Goulart interpreta esses tipos diversos com precisão: reconhece-se que é a personagem interpretando um homem ou mulher fragilizada e não a própria atriz. Guilherme Leme, por sua vez, necessita de mais cuidado para não desbocar no caricato - mesmo que o texto conceda licença para o humor (que em muitas passagens do texto, funciona). É preciso certo esforço para notar traços de Valmont- e não de Guilherme Leme - quando o personagem se passa por outro.
Nos hiatos entre os jogos de inversão de papéis, os personagens se movimentam pelo palco como felinos arredios - prontos para o ataque. Em oposição ao viés de disputa que permeia toda a peça, ocorrem curtos intervalos de aproximação. É durante estes trechos fugazes que as intricadas ligações entre os protagonistas se fazem notar – e também onde os atores conseguem manifestar com bastante cumplicidade os sentimentos dúbios presentes no texto. Se minutos antes o conflito era uma ato irrefreável, em poucos segundos as emoções passam a exprimir desejo e paixão em doses rápidas e avassaladoras. Uma condição paradoxal que persiste inclusive no encerramento de “Quartett". Como na cena inicial, o corpo se encontra estendido e com a mão direita virada para cima e Merteuil o observa com o mesmo olhar penetrante. Um acontecimento inesperado, porém, antecipa o desfecho e deixa a platéia atônita. Dessa vez, a revelação da possível verdade através de uma mentira não é encenada.
Serviço
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Rua Alvares Penteado, 112, Centro, São Paulo (SP)
Tel: 11-3113-3651
Temporada: 21/02 a 20/04/2008
Horários: Quintas, Sextas e Sábados às 19h30 e domingo às 18h