Retrato de família
Fotos antigas de família costumam evocar fantasmas e trazer à tona histórias esquecidas ou que não desejam ser lembradas. Os retratados, a despeito da imobilidade, parecem retomar respiração e batimentos cardíacos graças aos relatos ouvidos sobre os acontecimentos do passado e ao uso da imaginação. Nessa capacidade de relembrar o passado é onde está situada a importância dessas imagens para desenterrar as raízes de um agrupamento familiar e jogar luz sobre os motivos das configurações atuais do clã. A foto, muitas vezes corroída pela ação do decorrer dos anos, não deixa de ser uma evidência de que incontestavelmente situações, relacionamentos e pessoas trouxeram a família para os seus traços contemporâneos. É aproveitando o caráter reanimador e, portanto, esclarecedor, das fotografias antigas que o diretor Roberto Lage abre a peça “Dois Irmãos", baseada no premiado romance homônimo de Milton Hatoum e em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil paulistano até cinco de outubro. A adaptação da narrativa literária para a linguagem teatral ficou sob a responsabilidade do dramaturgo Jucca Rodrigues.
A partir de uma formação estática que remete à fotografia impressa no folheto do espetáculo, o enredo se desenvolve como no livro situando a ação em Manaus, cidade de origem do autor. A produção também leva aos palcos os contornos políticos da obra ao descrever uma face do Brasil desde a década de 40 até aos episódios provocados pela ditadura militar (1964-1985). Após uma grave briga entre os irmãos adolescentes Yaqub (Gabriel Pinheiro) e Omar (Jiddu Pinheiro) onde o último fere o rosto do primeiro com um objeto cortante devido ao ciúme por Lívia (Bete Correia), os pais Halim (Luiz Damasceno) e Zana (Imara Reis) resolvem separar os filhos por um tempo despachando para o Líbano o irmão mais velho, Yaqub. A volta do primogênito evidencia as personalidades destoantes dos irmãos. De temperamento mais recatado e voltado para os estudos, Yaqub diverge diametralmente de Omar. Este, agressivo e de impulsos desmedidos, apresenta caráter hedonista e ocupa seu tempo com o conhecido trinômio festas, bebidas e mulheres. A estória, fragmentada e não-linear, é narrada por Nael (Rodrigo Ramos), filho da empregada índia da família, Domingas (Viviane Pasmanter). Os acontecimentos ainda contam com a participação da irmã Rânia (Tatiana Thomé).
Embora a cerne da peça esteja mesmo concentrada nos embates de temperamento dos irmãos, os outros personagens possuem papel de grande destaque no enredo. Halim, por exemplo, é o simpático libanês patriarca da família. Desenvolvido com apuro por Luiz Damasceno, Halim funciona como a válvula do humor e poesia, portanto de escape, da encenação. Imara Reis, por sua vez conduz com segurança a mãe, Zana. A interação entre os dois é um dos pontos-forte da peça. A atriz Bete Correia, idealizadora do projeto, se desdobra em três papéis de “apoio” para o enredo sem destoar dos seus colegas de cena. Tatiana Thomé empresta doçura a sua Rânia, mesmo caminho traçado por Rodrigo Ramos para Nael. Um dos “periféricos” de grande relevância está na figura da empregada Domingas. Viviane Pasmanter obtém excelentes momentos como na cena onde ela conta a Nael sobre o seu passado na aldeia ou, quando ausente do desenrolar principal da cena, saboreia uma laranja. Com boa caracterização, Viviane está traçando passos de evolução na carreira ao se arriscar em personagens que normalmente não interpretaria na televisão. Os irmãos na vida real Gabriel e Jiddu Pinheiro desenvolvem Yaqub e Omar explorando não apenas as diferenças como também as semelhanças entre os dois irmãos fictícios.
O elenco ganha um eficiente suporte físico para a qualidade do seu trabalho. O cenário de Alexandre Trono transporta para o palco a reprodução artística de uma raiz de seringueira sustentada acima dos personagens. Instalação apropriada para uma peça que acontece no Amazonas e que tem a intenção de explorar a origem da família, ou melhor, “as origens” como diz Nael no começo da encenação. O tom sépia usado pela equipe de arte remete ao envelhecimento do papel além de sugerir impressões diversas como lembranças remotas, passado e sonho. Embora a ação esteja situada em uma selva tropical, esse tipo de tonalidade também proporciona certo aspecto de aridez. Referência ao Líbano, país dos ascendentes do autor de “Dois Irmãos”, e muitas vezes citado na peça, inclusive com algumas curtas passagens citadas na língua libanesa. A trilha sonora leva esse carga genética e oscila entre cânticos libaneses e canções típicas do Amazonas. O figurino bem executado de Paula Valéria ajuda na contextualização da peça traduzindo o que e como se vestia na época dos acontecimentos.
Com esses fatores, a montagem “Dois Irmãos” alcança as expectativas exigidas por se tratar de uma encenação inspirada em um livro que foi considerado por muitos críticos literários como “o melhor romance brasileiro dos últimos 15 anos (1990-2005)” - o que está longe de ser pouco. Em 100 minutos de duração, os realizadores sintetizaram através da escolha de passagens essenciais para a trama, o que de mais relevante havia para o entendimento, e o subseqüente sucesso, da produção - sem soar maçante. O resultado é uma peça que transporta os espectadores para um tempo e espaço distantes (pelo menos para os paulistanos) utilizando recursos peculiares ao bom teatro: enredo premiado, direção eficiente, arte original e – o mais importante – um elenco talentoso e que acredita na produção.
A partir de uma formação estática que remete à fotografia impressa no folheto do espetáculo, o enredo se desenvolve como no livro situando a ação em Manaus, cidade de origem do autor. A produção também leva aos palcos os contornos políticos da obra ao descrever uma face do Brasil desde a década de 40 até aos episódios provocados pela ditadura militar (1964-1985). Após uma grave briga entre os irmãos adolescentes Yaqub (Gabriel Pinheiro) e Omar (Jiddu Pinheiro) onde o último fere o rosto do primeiro com um objeto cortante devido ao ciúme por Lívia (Bete Correia), os pais Halim (Luiz Damasceno) e Zana (Imara Reis) resolvem separar os filhos por um tempo despachando para o Líbano o irmão mais velho, Yaqub. A volta do primogênito evidencia as personalidades destoantes dos irmãos. De temperamento mais recatado e voltado para os estudos, Yaqub diverge diametralmente de Omar. Este, agressivo e de impulsos desmedidos, apresenta caráter hedonista e ocupa seu tempo com o conhecido trinômio festas, bebidas e mulheres. A estória, fragmentada e não-linear, é narrada por Nael (Rodrigo Ramos), filho da empregada índia da família, Domingas (Viviane Pasmanter). Os acontecimentos ainda contam com a participação da irmã Rânia (Tatiana Thomé).
Embora a cerne da peça esteja mesmo concentrada nos embates de temperamento dos irmãos, os outros personagens possuem papel de grande destaque no enredo. Halim, por exemplo, é o simpático libanês patriarca da família. Desenvolvido com apuro por Luiz Damasceno, Halim funciona como a válvula do humor e poesia, portanto de escape, da encenação. Imara Reis, por sua vez conduz com segurança a mãe, Zana. A interação entre os dois é um dos pontos-forte da peça. A atriz Bete Correia, idealizadora do projeto, se desdobra em três papéis de “apoio” para o enredo sem destoar dos seus colegas de cena. Tatiana Thomé empresta doçura a sua Rânia, mesmo caminho traçado por Rodrigo Ramos para Nael. Um dos “periféricos” de grande relevância está na figura da empregada Domingas. Viviane Pasmanter obtém excelentes momentos como na cena onde ela conta a Nael sobre o seu passado na aldeia ou, quando ausente do desenrolar principal da cena, saboreia uma laranja. Com boa caracterização, Viviane está traçando passos de evolução na carreira ao se arriscar em personagens que normalmente não interpretaria na televisão. Os irmãos na vida real Gabriel e Jiddu Pinheiro desenvolvem Yaqub e Omar explorando não apenas as diferenças como também as semelhanças entre os dois irmãos fictícios.
O elenco ganha um eficiente suporte físico para a qualidade do seu trabalho. O cenário de Alexandre Trono transporta para o palco a reprodução artística de uma raiz de seringueira sustentada acima dos personagens. Instalação apropriada para uma peça que acontece no Amazonas e que tem a intenção de explorar a origem da família, ou melhor, “as origens” como diz Nael no começo da encenação. O tom sépia usado pela equipe de arte remete ao envelhecimento do papel além de sugerir impressões diversas como lembranças remotas, passado e sonho. Embora a ação esteja situada em uma selva tropical, esse tipo de tonalidade também proporciona certo aspecto de aridez. Referência ao Líbano, país dos ascendentes do autor de “Dois Irmãos”, e muitas vezes citado na peça, inclusive com algumas curtas passagens citadas na língua libanesa. A trilha sonora leva esse carga genética e oscila entre cânticos libaneses e canções típicas do Amazonas. O figurino bem executado de Paula Valéria ajuda na contextualização da peça traduzindo o que e como se vestia na época dos acontecimentos.
Com esses fatores, a montagem “Dois Irmãos” alcança as expectativas exigidas por se tratar de uma encenação inspirada em um livro que foi considerado por muitos críticos literários como “o melhor romance brasileiro dos últimos 15 anos (1990-2005)” - o que está longe de ser pouco. Em 100 minutos de duração, os realizadores sintetizaram através da escolha de passagens essenciais para a trama, o que de mais relevante havia para o entendimento, e o subseqüente sucesso, da produção - sem soar maçante. O resultado é uma peça que transporta os espectadores para um tempo e espaço distantes (pelo menos para os paulistanos) utilizando recursos peculiares ao bom teatro: enredo premiado, direção eficiente, arte original e – o mais importante – um elenco talentoso e que acredita na produção.
Serviço
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Rua Alvares Penteado, 112, Centro, São Paulo (SP)
Tel: 11-3113-3651
Temporada: 15/08 a 05/10/2008
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Rua Alvares Penteado, 112, Centro, São Paulo (SP)
Tel: 11-3113-3651
Temporada: 15/08 a 05/10/2008
Horários: Quintas, Sextas e Sábados às 19h30 e domingo às 18h