domingo, 5 de outubro de 2008

Exposição - " Brasil Brasileiro"

Sobre clichês e orgulho

“Brasil Brasileiro”, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil paulistano até 4 de janeiro de 2009, é uma exposição que não tem medo dos clichês. Pelo contrário, os reforça para constatar que o Brasil é, sim, tudo isso que falam dele. A mostra abraça conceitos que tangenciam uma nação idealizada para decodificar uma genética exclusiva do país. Se morar aqui é mesmo conviver com etnias miscigenadas, paisagens naturais arrebatadoras e com um povo que é reconhecido pela sua criatividade, pelo seu imaginário e por seu sorriso nas adversidades, por que não reunir obras que evidenciem justamente essas condições genuinamente brasileiras? Em um tom despretensioso, ausente de objetivos antropológicos ou de configurar uma história da arte no país, “Brasil Brasileiro”, sob curadoria de Fábio Magalhães, agrupa 174 obras de 69 artistas. São trabalhos que focam a produção da pintura nacional entre os séculos XIX e XX, reunidos em quatro temáticas diferentes: Nossos Sonhos, Nossa Gente, Nossa Terra e Nossa Luta. Dessa forma, diferentes estilos e épocas são dispostos lado a lado o que possibilita a identificação de similaridades entre escolas e períodos diferentes.
A primeira obra que o visitante encontra ao entrar no CCBB pode ser interpretada como uma síntese da exposição. Assinada por Nelson Leiner, a instalação, concebida exclusivamente para o evento, dispõe cadeiras de plástico cobertas com chita (tecido popular, colorido e de motivos florais) em um círculo. No centro, dezenas de estatuetas idênticas representativas da Iemanjá (entidade conhecida como “Rainha dos Mares”) são colocadas simetricamente no centro da roda em uma estrutura de degraus. Ao lado das cadeiras, luminárias brancas que lembram coqueiros, com bananas de plásticos no lugar das lâmpadas e guarda-sóis coloridos. Se o sentido não fica claro no primeiro instante, tem-se a certeza de que há algo de extremamente brasileiro na obra. Praia, candomblé e tropicália são algumas imagens suscitadas pelo encontro entre alguns elementos icônicos da brasilidade (banana, coqueiro, chita) com conceitos mais abstratos como simplicidade, criatividade e despojamento. O trabalho evidencia do que se trata a exposição.
No terceiro andar estão situadas as obras que foram reunidas sob o tema “Nossos Sonhos”. Procurou-se neste pavimento, reunir trabalhos que tratassem da forte religiosidade do país, das crenças e da capacidade inigualável dos brasileiros de festejar. Alex Flemming contemporaniza a imagem de São Jorge e da Sereia em estruturas metálicas, de cores fortes e traços quase irreconhecíveis. Maria Auxiliadora retrata um parque de diversões, típico do interior do país, com traços simples e ingênuos. “Madona” de Alfredo Volpi também transmite singeleza. Outro destaque é o belo “Roda” (1942) de Milton Dacosta. Cabe aqui uma observação a respeito da luminosidade da sala, escura demais. A própria “Madona” de Volpi tinha a percepção da coloração prejudicada devido à ausência de luz, assim como “O Grande Carnaval” de Di Cavalcanti. Em alguns casos o ponto de iluminação refletia diretamente na obra (como em “Estrela da Manhã” de Tomás Santa Rosa) prejudicando a visão quando o visitante se posta frontalmente ao quadro. Um problema aparentemente de simples resolução, mas que pode comprometer o resultado da mostra.
“Nossa Terra” e “Nossa Gente” estão no segundo andar. No espaço expositivo, a pintura “Flora e fauna brasileiras” (1934) de Cândido Portinari pertinentemente recepciona o visitante para o bloco que trata de temas relacionados ao cenário natural do país. Esse trabalho é um resumo da imagem representativa do que é a natureza brasileira, ou pelo menos de uma visão difundida do que seja a beleza ou o exotismo dos recursos naturais dessa terra. Estão ali o papagaio, o mico, a banana e a diversidade botânica, elementos sinônimos de brasilidade. “Porto Feliz” de João Batista da Costa representa a exuberância verde e “Praia da Barra” (1952) de Arcângelo Ianelli é uma das imagens litorâneas na exposição. O urbano foi contemplado em trabalhos como “Rua dos Sapateiros” (1966) de Yoshiya Takaoka. Três exemplos que denotam a diversidade – e a beleza - das paisagens. Neste segmento também se encontram as pinturas de natureza-morta sendo estas divididas em flores e frutas, com a presença indefectível das bananas, principalmente no trabalho de Antonio Henrique Amaral.
A temática “Nossa Gente” apresenta retratos que procuram desvendar alguns arquétipos da sociedade. A sensualidade miscigenada talvez nunca foi tão bem representada como nos trabalhos de Emiliano Di Cavalcanti, dois exemplares da notoriedade desse artista estão neste segmento. O caipira é uma recorrência no trabalho de Almeida Junior, presente com “Caipira Picando Fumo” (1893). “Cae” (1968) de Cláudio Tozzi se destaca no mural expositivo pela divergência estética dos outros quadros. O retrato traz dois desenhos idênticos, porém opostos de Caetano Veloso com uma representação de um papagaio entre elas. Contracultura, pop-art, tropicália, muitos atributos se encontram neste trabalho. Outros destaques: “Retrato de Mulher” de Flávio de Carvalho, “Menina do Laço de fita” de Alfredo Volpi e “Lavandeiras do Abaeté” de José Pancetti (1957). No bloco, uma seção foi dedicada a um importante ícone do brasileiro: o futebol. Aqui o espiral colorido da “Bicicleta” de Antonio Peticov é um deleite vertiginoso para os olhos ao retratar os rastros de um jogador praticando o sempre aclamado movimento em campo.
As dificuldades enfrentadas no país são percorridas no subsolo do CCBB onde se encontram as obras do segmento “Nossas Lutas”. Aqui foram privilegiados os trabalhos de temáticas mais sociais. A ditadura militar (1964-1985) não poderia ficar de fora. “Terceiro Mundo” de Cláudio Tozzi possui na parte superior da moldura um material que remete aos mármores funerários e na inferior, roupas amassadas, rasgadas e amontoadas – alusão às mortes ligadas ao regime. “Os desaparecidos” (1965) de Rubens Gerchman é outra corajosa evidência do empenho dos artistas em denunciar as agruras do período. “Greve no ABC”, por sua vez, relembra a repressão à greve dos metalúrgicos de São Bernardo em 1978 e “Repressão” de Cícero Dias é uma representação da angústia e do terror que é viver sob essa condição.
Um dos artifícios usados em “Brasil Brasileiro” é o uso de músicas nacionais reconhecidas nos locais de exposição. A idéia é provocar a audição para situar ainda mais o visitante na brasilidade pretendida pela mostra. O resultado é uma imersão dos sentidos em características inatas ao país. Esse recurso reforça a possibilidade da exposição de agradar um grande número de pessoas com uma fórmula bastante simples: aliar a suposta despretensão da produção com a beleza incontestável dos quadros. Como descrito no catálogo, a mostra é leve, gostosa como “uma tarde de sol, num domingo à beira-mar”. Assim, “Brasil Brasileiro” apresenta nomes de peso das artes plásticas ao grande público, numa disposição fácil e agradável. O que o visitante observará é mais do que a imagem do seu país, é um reflexo dele mesmo, de suas belezas, de seus anseios, de suas conquistas. Corre-se o risco de surgir um sentimento que só provêm após reconhecimento e aceitação: o orgulho de ser aquilo que se é.
Local: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: Rua Alvares Penteado, 112, Centro, São Paulo (SP)
Tel: 11-3113-3651
Temporada: 21/02 a 20/04/2008
Horários: Quintas, Sextas e Sábados às 19h30 e domingo às 18h